Capítulo 03: A Religião como Escudo Fálico – O Papel da Espiritualidade no Reforço da Superioridade Masculina e das Normas de Gênero
Em várias culturas, a bainha peniana serviu durante muito tempo como um símbolo de masculinidade, marcando não apenas a proteção física, mas uma defesa social e espiritual mais ampla da dominância masculina. Um exemplo notável é o grupo Dani da Nova Guiné, onde os homens usam kotekas — bainhas feitas de cabaças secas — como parte do seu vestuário. Estas bainhas servem a um duplo propósito: proteger a genitália masculina e, simultaneamente, sinalizar a importância de salvaguardar a masculinidade e o poder. Em essência, a bainha peniana torna-se um escudo simbólico para a superioridade masculina, reforçando as estruturas sociais que mantêm os homens no controle.
Este objeto físico é uma metáfora poderosa para o papel que a religião tem desempenhado ao longo da história na manutenção dos valores patriarcais. Muito à semelhança de um escudo fálico, as instituições religiosas e as crenças espirituais atuaram como uma barreira protetora para a dominância masculina, blindando o controlo dos homens sobre as mulheres e a sociedade. Das hierarquias religiosas aos textos sagrados, a religião tem sido uma força poderosa na justificação e na perpetuação da liderança masculina, ao mesmo tempo que restringe a autonomia feminina.
Este capítulo explora como a religião, tal como a bainha peniana simbólica, tem sido deliberadamente utilizada para reforçar o patriarcado. Ao incrustar valores patriarcais nas crenças e práticas espirituais, a religião tem sustentado estruturas sociais que favorecem a dominância masculina, enquanto suprime o empoderamento feminino. Ao examinar os contextos históricos e os textos religiosos, podemos desvendar como a religião atuou como uma salvaguarda para a superioridade masculina e continua a influenciar as dinâmicas de gênero na atualidade.
Contexto Histórico da Bainha Peniana
A bainha peniana, em muitas sociedades antigas e tribais, era muito mais do que uma peça prática de vestuário. Tornou-se um símbolo cultural de masculinidade, de poder e de dominância masculina. A tribo Dani da Nova Guiné fornece o exemplo mais conhecido, onde os homens usam kotekas — bainhas de cabaça para cobrir os genitais. Estas não eram simplesmente usadas por modéstia ou proteção física, mas como símbolos do status masculino e da masculinidade. O tamanho e a forma da koteka de um homem frequentemente denotavam a sua idade, o seu papel na tribo ou o seu estrato social.
Contudo, a utilização da bainha peniana estendia-se para além da proteção física para encarnar um significado espiritual. Simbolizava o poder masculino e a necessidade de salvaguardar a sexualidade masculina — vista como central para a identidade e as capacidades reprodutivas de um homem. O ritual e a tradição em torno da bainha peniana enfatizavam o seu papel na transição de um homem para a vida adulta, reforçando o seu direito de participar plenamente na vida social e espiritual da tribo.
No entanto, a função mais profunda da bainha peniana não dizia respeito apenas à proteção — dizia respeito ao controle. A koteka simbolizava um esforço social mais amplo para proteger a autoridade masculina, refletindo a insegurança masculina subjacente em relação à perda do controlo sobre os recursos e as mulheres. Neste contexto, a bainha peniana era uma afirmação tangível de controlo sobre a identidade masculina e, por extensão, sobre a hierarquia social. Ela salvaguardava não apenas os órgãos reprodutivos masculinos, mas o poder masculino, reforçando a ideia de que os homens eram os líderes, os protetores e os provedores naturais.
Esta necessidade de controlar e de manter a dominância masculina está profundamente conectada às dinâmicas sociais e de gênero mais amplas da Papua Nova Guiné. Ainda hoje, o país continua a ser um dos mais perigosos para as mulheres, com taxas elevadas de violência doméstica, abuso sexual e discriminação baseada no gênero. Os quadros culturais que priorizam a dominância e o controlo masculinos, refletidos em símbolos como a bainha peniana, têm perpetuado uma sociedade onde as mulheres são frequentemente marginalizadas e oprimidas.
A prevalência da bainha peniana e o seu significado simbólico falam da fragilidade do poder masculino — uma insegurança que se manifesta na violência e na repressão da autonomia feminina. Em muitas sociedades patriarcais, quanto mais controlo os homens exercem sobre as mulheres, mais evidente se torna que a dominância masculina é algo que deve ser constantemente vigiado e reforçado. A bainha peniana, portanto, torna-se um símbolo não apenas da fisicalidade masculina, mas do medo de perder o controlo sobre as mulheres, sobre os seus corpos e sobre os seus papéis na sociedade.
A Religião como uma Guarda Social para a Superioridade Masculina
Tal como a bainha peniana protegia física e simbolicamente a dominância masculina, a religião tem servido como uma guarda social e espiritual para proteger e sustentar o patriarcado. Através de diferentes culturas e sistemas religiosos, as estruturas dominadas por homens foram deliberadamente criadas e reforçadas para garantir que os homens permanecessem em posições de poder enquanto as mulheres eram relegadas a papéis secundários. A religião atuou frequentemente como uma barreira protetora, legitimando o controlo masculino sobre a sociedade através de narrativas divinas e da autoridade espiritual.
Em muitas religiões abraâmicas — o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo —, a autoridade masculina está explicitamente incrustada em textos sagrados e nas tradições religiosas. Deus é frequentemente retratado como uma figura patriarcal, estabelecendo uma hierarquia clara com os homens no topo. Por exemplo, na Bíblia, Deus cria Adão primeiro, à Sua própria imagem, e Eva a partir da costela de Adão. Esta narrativa da criação, em particular o estatuto secundário e dependente de Eva, tem sido utilizada para justificar a subjugação das mulheres durante séculos. O papel de Eva na Queda do Homem — onde ela sucumbe à tentação e leva Adão a comer do fruto proibido — enraizou ainda mais a ideia de que as mulheres são moralmente mais fracas e devem ser controladas pelos homens.
De forma semelhante, no Alcorão, o conceito de Qiwamah (tutela) reforça a autoridade masculina sobre as mulheres. Os homens são vistos como os protetores e os provedores, responsáveis pelo bem-estar das suas famílias. Esta noção é reforçada através de vários Hadiths (ditos do Profeta Maomé) que delineiam papéis de gênero estritos, assegurando a subordinação das mulheres tanto na vida religiosa como na social. Estas estruturas religiosas, que posicionam os homens como líderes naturais, estão profundamente arraigadas em muitas sociedades islâmicas, onde os papéis das mulheres permanecem limitados a capacidades domésticas e subservientes.
No Hinduísmo, o antigo texto legal Manusmriti codifica uma ordem social rigorosa onde as mulheres estão perpetuamente sob a tutela masculina — primeiro sob a dos seus pais, depois sob a dos seus maridos e, mais tarde, sob a dos seus filhos. A autonomia das mulheres é restringida dentro destas fronteiras, e o seu valor é frequentemente atrelado ao seu papel na preservação da honra da família. Na mitologia hindu, embora as deusas sejam poderosas, elas desempenham frequentemente papéis complementares aos deuses masculinos, refletindo as estruturas dominadas pelos homens na sociedade. As tradições religiosas e culturais fundamentadas nestes textos têm, há muito, justificado a restrição da autonomia e da independência das mulheres.
Os textos e os ensinamentos religiosos em diferentes culturas não apenas enfatizam a autoridade masculina, mas também a institucionalizam. Nestes sistemas patriarcais, a dominância masculina é justificada como divinamente ordenada, deixando pouco espaço para o questionamento ou a reforma. A legitimidade espiritual da autoridade masculina tornou estas estruturas de poder resistentes à mudança, uma vez que desafiar a dominância masculina equivale, muitas vezes, a desafiar a doutrina religiosa.
As instituições religiosas, também elas, excluíram historicamente as mulheres das posições de liderança. Durante séculos, apenas os homens puderam servir como sacerdotes no Cristianismo, uma tradição que continua em muitas denominações. No Islão, as mulheres não estão autorizadas a liderar orações de gêneros mistos. No Hinduísmo, as mulheres estão impedidas de realizar certos rituais religiosos, em particular durante a menstruação, visto que são consideradas ritualmente impuras durante esse período. Estas práticas institucionais reforçam a ideia de que os homens são espiritualmente superiores e que as mulheres são inerentemente inferiores.
A religião funciona, assim, de modo muito semelhante à bainha peniana simbólica, blindando a dominância masculina e mantendo os valores patriarcais através de justificação divina. Ao posicionar a autoridade masculina como sagrada e inquestionável, as instituições religiosas têm desempenhado um papel fundamental na perpetuação da desigualdade de gênero. Os guardiões da autoridade religiosa — quer sejam sacerdotes, rabinos, imãs ou gurus — asseguraram que a dominância masculina permaneça profundamente incrustada nas normas da sociedade, tornando difícil para as mulheres desafiar estas estruturas.
Textos Religiosos e Papéis de Gênero
Os textos religiosos têm sido, há muito, ferramentas poderosas para o estabelecimento e a imposição de papéis de gênero rígidos. Através de várias fés, as escrituras definiram o estatuto social e espiritual dos homens e das mulheres, colocando frequentemente as mulheres em posições subordinadas e submissas. Estes textos não refletem apenas as sociedades patriarcais em que foram escritos, mas também têm sido utilizados como justificações para a subordinação contínua das mulheres, enquadrando-a como lei divina.
Na Bíblia, tanto o Antigo como o Novo Testamento contêm exemplos de como a doutrina religiosa tem sido usada para estabelecer a autoridade masculina. A história da criação no Gênesis, onde Eva é feita da costela de Adão, tem sido interpretada há muito tempo como um endosso divino da superioridade masculina. O papel de Eva no Pecado Original — onde ela é tentada pela serpente e causa a queda da humanidade — consolidou ainda mais a posição da mulher como um ser secundário e moralmente mais fraco. Passagens como Efésios 5:22-24, que convoca as esposas a “submeter-se aos seus maridos como ao Senhor”, reforçam esta noção de submissão feminina. As referências bíblicas às mulheres como o "vaso mais fraco" (1 Pedro 3:7) foram interpretadas por muitos líderes religiosos com a implicação de que as mulheres são espiritualmente mais fracas e necessitam da orientação masculina.
No Alcorão, os papéis de gênero são definidos de forma semelhante, com os homens posicionados como os guardiões das mulheres devido à sua força física e responsabilidade financeira. A Surata An-Nisa (4:34) menciona explicitamente os homens como protetores e mantenedores das mulheres, o que foi amplamente interpretado como o endosso divino da autoridade masculina dentro da família e da sociedade. Embora o Alcorão ofereça proteções para as mulheres, a interpretação destes textos por eruditos do sexo masculino tem-se focado frequentemente na justificação da superioridade masculina, assegurando a obediência das mulheres aos seus maridos e guardiões masculinos.
No Hinduísmo, os Vedas e outros textos fundamentais institucionalizam os papéis de gênero, colocando frequentemente as mulheres em posições de subserviência. O Manusmriti, um dos textos jurídicos mais influentes do Hinduísmo, delinea diretrizes estritas para o comportamento feminino, afirmando que as mulheres devem estar sempre sob a tutela dos homens. As mulheres são descritas como inerentemente fracas, precisando de supervisão constante para manter a ordem social. A proclamação do Manusmriti de que "uma mulher nunca deve ser independente" foi usada para justificar a opressão sistêmica das mulheres em muitas comunidades hindus tradicionais, limitando a sua autonomia e o acesso à educação, à liderança e a rituais religiosos.
Mesmo no Budismo, que é frequentemente visto como mais igualitário, os papéis de gênero são distintamente hierárquicos. As Bhikkhunis (monjas budistas) devem seguir as Oito Garudhammas, um conjunto de regras que reforçam a dominância masculina dentro da comunidade monástica. Estas regras exigem que até mesmo a monja mais idosa demonstre deferência perante o monge mais jovem, indicando o estatuto secundário das mulheres na vida monástica budista. Além disso, a crença de que nascer mulher é resultado de carma negativo de uma vida anterior tem reforçado a ideia de que as mulheres são espiritualmente inferiores aos homens, contribuindo para o seu estatuto inferior no seio das comunidades budistas.
Estudos de Caso: A Religião como Ferramenta de Supressão do Empoderamento Feminino
Ao longo da história, a religião tem sido frequentemente usada como um mecanismo para suprimir o empoderamento feminino, mantendo a dominância masculina ao incrustar valores patriarcais nos quadros religiosos. A análise de estudos de caso específicos através de várias religiões e culturas revela como estas estruturas reforçaram a desigualdade de gênero. Em contraste, alguns sistemas religiosos matriarcais oferecem um vislumbre de como os papéis das mulheres poderiam ser mais empoderados e respeitados.
Religiões Abraâmicas e Subjugação Feminina
Nas religiões abraâmicas — Judaísmo, Cristianismo e Islamismo — os textos sagrados e as práticas religiosas têm posicionado consistentemente as mulheres em papéis subordinados, reforçando a autoridade masculina. No Judaísmo, papéis estritos de gênero estão incrustados no quadro religioso, com as práticas tradicionais a separar os deveres religiosos dos homens e das mulheres. Em muitas comunidades judaicas ortodoxas, as mulheres estão impedidas de servir como rabinas ou de participar em rituais religiosos significativos, garantindo que os homens retenham o controlo sobre a vida religiosa. A Torá reforça a dominância masculina delegando os papéis das mulheres à esfera doméstica, perpetuando a crença de que os homens devem deter a autoridade religiosa.
No Cristianismo, a Bíblia tem servido há muito como uma base para a subjugação das mulheres, particularmente através da história de Eva no Livro do Gênesis. A transgressão de Eva no Jardim do Éden tem sido interpretada como uma justificação para o estatuto inferior das mulheres, retratando-as como inerentemente mais fracas e moralmente não confiáveis. Esta narrativa permitiu que as instituições cristãs negassem posições de liderança e de autoridade religiosa às mulheres ao longo da história. Ainda hoje, muitas denominações cristãs, como a Igreja Católica, proíbem a ordenação de mulheres, mantendo a crença de que o poder religioso deve ser exclusivamente masculino.
No Islamismo, a desigualdade de gênero é frequentemente perpetuada através dos versículos corânicos e dos Hadiths (ditos do Profeta Maomé), que são interpretados para dar primazia à autoridade masculina. Por exemplo, o Alcorão 4:34 permite que os maridos disciplinem as suas esposas, reforçando o controlo masculino sobre o comportamento feminino. Em muitos países islâmicos, estas interpretações são codificadas na lei Sharia, restringindo os direitos legais e a autonomia das mulheres. Países como a Arábia Saudita impuseram historicamente restrições severas às liberdades das mulheres, impedindo-as de conduzir, trabalhar ou viajar sem a permissão de um homem. Estas leis foram justificadas através de interpretações religiosas que dão primazia à tutela masculina sobre as mulheres.
O Hinduísmo e o Legado dos Papéis de Gênero
No Hinduísmo, a subordinação das mulheres está profundamente enraizada nos textos religiosos, particularmente nos Vedas e no Manusmriti. Embora deusas como Lakshmi e Durga sejam reverenciadas, as estruturas sociais hindus enfatizaram historicamente a dominância masculina. O Manusmriti, um influente texto jurídico, relega as mulheres para posições de subserviência, definindo uma hierarquia que coloca os homens em controlo total sobre elas. De acordo com o texto, uma mulher não deve nunca ser independente e deve estar sempre sob o controlo do seu pai, do seu marido ou do seu filho. Este sistema de crenças justificou práticas como o Sati, na qual viúvas eram queimadas nas piras funerárias dos seus maridos, um exemplo extremo do controlo exercido sobre os corpos e as vidas das mulheres.
As sociedades hindus modernas continuam a refletir estes papéis de gênero através de práticas como o sistema de dotes e a preferência por filhos do sexo masculino. Estes costumes, enraizados na tradição religiosa, perpetuam a desigualdade de gênero e suprimem os direitos das mulheres. A opressão sistêmica das mulheres nas comunidades hindus continua a ser reforçada por normas religiosas, limitando a sua capacidade de se libertarem destes papéis profundamente arraigados.
O Islamismo e os Direitos das Mulheres no Oriente Médio
Em muitos países do Oriente Médio, a lei islâmica (Sharia) foi utilizada para restringir os direitos das mulheres, servindo frequentemente as interpretações religiosas como base para sistemas jurídicos que controlam e subjugam as mulheres. Países como a Arábia Saudita impuseram durante muito tempo restrições severas às liberdades das mulheres, incluindo leis que proibiam as mulheres de conduzir ou de viajar sem a tutela masculina. Embora algumas reformas recentes tenham começado a levantar certas restrições, as justificações religiosas profundamente arraigadas para a dominância masculina permanecem pervasivas.
Por exemplo, o Alcorão 4:34, que permite que os homens disciplinem as suas esposas, tem sido uma ferramenta particularmente poderosa para manter o controlo masculino no casamento e na vida familiar. Em muitas comunidades islâmicas conservadoras, este versículo é interpretado como um endosso da autoridade masculina e é utilizado para justificar restrições à liberdade de movimento das mulheres, ao acesso à educação e ao emprego.
Por outro lado, algumas interpretações sufi e xiitas do Islão têm sido historicamente mais inclusivas com as mulheres, permitindo-lhes uma maior participação na vida religiosa e social. Contudo, o domínio das tradições conservadoras sunitas, em particular nos países influenciados pelo Wahhabismo, contribuiu para o entrincheiramento dos valores patriarcais nas sociedades islâmicas.
O Budismo e a Subordinação Feminina na Vida Monástica
Embora o Budismo seja frequentemente visto como mais igualitário, as mulheres nas comunidades monásticas budistas enfrentam discriminação há muito tempo. No Budismo Theravāda, praticado em países como o Sri Lanka e a Tailândia, as mulheres são muitas vezes proibidas de serem ordenadas de forma plena como monjas. Mesmo a bhikkhuni (monja) mais antiga deve demonstrar deferência perante o mais jovem bhikkhu (monge), reforçando a estrutura hierárquica que coloca os homens acima das mulheres.
Além disso, a crença de que nascer mulher é o resultado de um mau carma alimenta as visões da sociedade em relação às mulheres como inferiores. Frequentemente, ensina-se às mulheres que devem obedecer aos seus maridos e agir de forma virtuosa para renascerem como homens nas suas vidas futuras. Esta crença reforça a noção de que a existência masculina é espiritualmente superior, perpetuando a desigualdade de gênero dentro do quadro religioso.
A Civilização Minoica e as Estruturas Matriarcais
Em forte contraste com os sistemas patriarcais discutidos acima, a civilização minoica da antiga Creta fornece um exemplo raro de uma estrutura religiosa matriarcal. Os minoicos veneravam deusas poderosas, e as mulheres desempenhavam papéis de destaque tanto na vida religiosa como social. Ao contrário dos sistemas dominados pelos homens nas tradições abraâmicas ou hindus, a sociedade minoica centrava-se no culto das divindades femininas, e as mulheres eram colocadas em posições de liderança e reverência.
A Deusa-Mãe era celebrada como a divindade suprema, refletindo uma visão do mundo em que as mulheres eram vistas como vitais para o equilíbrio da vida e da sociedade. As mulheres eram as figuras centrais em cerimónias religiosas, como ilustram os frescos minoicos, e evidências arqueológicas sugerem que estas também detinham um poder político significativo. A sociedade minoica destacou-se pela forma como elevou as mulheres, oferecendo um modelo sobre como a religião pode funcionar de modo a empoderar as mulheres em vez de as suprimir.
Este contraste entre os sistemas religiosos matriarcais e patriarcais evidencia como diferentes ideologias espirituais moldaram os papéis e o status das mulheres. Enquanto os sistemas patriarcais utilizaram a religião para justificar a dominância masculina, as sociedades matriarcais, como a dos minoicos, celebravam a feminilidade e colocavam as mulheres em posições de autoridade e de influência.
Interpretações Modernas e Resistência: Desafiando Narrativas Religiosas Patriarcais
À medida que o movimento feminista moderno continua a desafiar as estruturas patriarcais profundamente incrustadas, a religião — historicamente um bastião da dominância masculina — tem estado cada vez mais sob escrutínio. A luta para confrontar e resistir a estas narrativas dominadas pelos homens tem assumido muitas formas, desde a reinterpretação dos textos religiosos até à criação de espaço para as mulheres nas instituições religiosas. Estes esforços abriram caminho a movimentos religiosos progressistas, a teólogas feministas e a mulheres empoderadas que procuram reclamar o seu devido lugar na esfera espiritual.
Desafios Feministas às Narrativas Religiosas Patriarcais
As investigadoras e ativistas feministas têm dado passos significativos na crítica à natureza baseada no gênero das narrativas e das instituições religiosas. Argumentam que uma grande parte da opressão que as mulheres enfrentam em contextos religiosos tem a sua origem em interpretações patriarcais dos textos sagrados. A crítica feminista concentra-se na forma como as tradições religiosas foram escritas, interpretadas e controladas por homens, frequentemente em detrimento dos direitos e da autonomia das mulheres.
No Cristianismo, teólogas feministas como Mary Daly e Rosemary Radford Ruether desafiaram os preconceitos de gênero na interpretação bíblica. Daly, por exemplo, defendeu a famosa posição de que "se Deus é masculino, então o masculino é Deus", sublinhando o problema de uma teologia centrada no homem. As investigadoras feministas têm examinado os papéis das mulheres nas primeiras comunidades cristãs, desenterrando histórias perdidas de liderança feminina na igreja. Estes esforços desencadearam debates sobre a ordenação das mulheres e a necessidade de desmantelar as estruturas patriarcais nas instituições cristãs.
No Islamismo, investigadoras feministas como Amina Wadud e Asma Barlas têm-se focado na reinterpretação do Alcorão através de uma perspetiva feminista. Wadud argumenta que a mensagem original do Alcorão enfatiza a justiça e a igualdade para ambos os gêneros, mas foi mal interpretada pelos eruditos masculinos com o objetivo de privilegiar os homens. Em 2005, Wadud conduziu uma polémica oração de sexta-feira com gêneros mistos, desafiando as práticas islâmicas tradicionais que proíbem as mulheres de liderar orações masculinas. Este ato de rebelião foi não só simbólico como prático, demonstrando a forma como as mulheres podem reivindicar a sua liderança espiritual no Islão.
De igual modo, no Judaísmo, teólogas feministas como Judith Plaskow têm trabalhado na reformulação das tradições judaicas na perspetiva da mulher. A obra inovadora de Plaskow, Standing Again at Sinai, apela a uma reinterpretação da história e dos rituais judaicos que integre plenamente as experiências das mulheres. Ela defende um Judaísmo onde as mulheres possam participar plenamente em papéis de liderança religiosa e em rituais, desafiando as estruturas tradicionais dominadas pelos homens dentro da vida religiosa judaica.
Movimentos Religiosos Progressistas pela Igualdade de Gênero
Em acréscimo às reinterpretações feministas dos textos religiosos, existem movimentos religiosos progressistas e líderes que trabalham na reforma das suas tradições a partir do seu interior. Estes movimentos visam criar comunidades religiosas mais inclusivas, nas quais as mulheres tenham igual acesso à liderança e à autoridade.
No Cristianismo, as denominações progressistas, tais como a Igreja Episcopal e a Igreja Unida de Cristo, abraçaram a ordenação de mulheres, contando hoje com mulheres a desempenharem funções como bispas, pastoras e líderes religiosas. Em 2006, Katharine Jefferts Schori tornou-se na primeira Bispa Presidente da Igreja Episcopal, um momento histórico na luta pela igualdade de gênero na liderança cristã.
No Islamismo, a ascensão de movimentos feministas muçulmanos como a Musawah tem desafiado as interpretações patriarcais da lei Sharia e os papéis de gênero. Fundado em 2009, o Musawah é um movimento global pela justiça e pela igualdade na família muçulmana, que advoga a favor de reformas legais e reinterpretações dos ensinamentos islâmicos para promover a igualdade de gênero. Estes movimentos procuram desmantelar normas culturais e religiosas que há muito restringem os direitos das mulheres nas comunidades muçulmanas.
No Hinduísmo, movimentos como o Shaktismo, que se baseia na adoração do divino feminino, providenciam uma plataforma para as mulheres reclamarem o poder espiritual. O Shaktismo enfatiza a igualdade entre as mulheres e os homens na veneração a Shakti, a força divina feminina, desafiando as tradições centradas nos homens noutros ramos do Hinduísmo. As gurus femininas como Mata Amritanandamayi ("Amma") reuniram grandes massas de seguidores, demonstrando que as mulheres podem deter uma autoridade espiritual considerável no seio do Hinduísmo.
Mulheres Reclamando Espaço Dentro das Estruturas Religiosas
Um pouco por todo o mundo, as mulheres estão ativamente a reclamar os seus espaços em instituições religiosas que lhes estavam tradicionalmente vedadas. Desde as posições de liderança até às reinterpretações teológicas, as mulheres estão paulatinamente a consolidar o seu espaço no interior das comunidades religiosas.
No Judaísmo, o movimento de oração igualitária assistiu ao aumento do número de mulheres a conduzir orações e leituras da Torá nas comunidades ortodoxas judaicas, o que constitui uma alteração considerável em comparação à sua exclusão tradicional dos papéis religiosos públicos. A organização Women of the Wall esteve na vanguarda da defesa do direito das mulheres a rezar e ler a partir da Torá no Muro das Lamentações em Jerusalém, apesar da forte contestação pelas autoridades religiosas conservadoras.
No Budismo, as mulheres têm lutado pelo direito à sua ordenação plena como bhikkhunis (monjas), uma prática que havia praticamente desaparecido em muitos países do Budismo Theravāda. No Sri Lanka e na Tailândia, a comunidade monástica feminina assumiu a dianteira do esforço de restabelecimento da ordenação total, desafiando a hierarquia monástica liderada por homens. Mulheres como a Dhammananda Bhikkhuni na Tailândia tornaram-se num símbolo de resistência, quebrando entraves centenários e motivando uma nova geração de mulheres budistas a buscar a ordenação.
No Cristianismo, a luta pela ordenação feminina prossegue em dominações como a Igreja Católica. Grupos como o Women’s Ordination Worldwide mantêm uma ativa campanha no sentido de integrar as mulheres no sacerdócio, contestando a longa proibição em vigor no Vaticano do clero feminino. Estas mulheres alegam que negar a ordenação das mulheres consiste numa violação da igualdade pregada por Jesus, enquanto instam a que haja uma reinterpretação dos textos bíblicos que justificaram, de um ponto de vista histórico, a exclusão da mulher das esferas de liderança religiosa.
No Islão, as mulheres assumem novamente o controlo de lugares nas mesquitas, dirigem orações e dedicam-se ao estudo religioso. A dinamarquesa Sherin Khankan, que se sagrou como a primeira imã da Europa, fundou a Mesquita Mariam em Copenhaga, dirigida por mulheres e acolhendo membros das comunidades masculinas e femininas. Esta iniciativa ilustra uma reviravolta profunda no seio das dinâmicas tradicionais de gênero na adoração do Islão, ao demonstrar que a oração bem como as comunidades religiosas podem ser conduzidas pelas mulheres sem contornarem quaisquer princípios islâmicos.
Conclusão
A religião, como a ancestral bainha peniana, sempre assumiu a função simultânea e contínua enquanto um símbolo e instrumento de carácter puramente prático de garantia de dominação pelo homem e como forma de acentuar todos os valores patriarcais nela inerentes. Da codificação de papéis associados ao gênero nas páginas de manuscritos tidos como sagrados até ao nascimento e desenvolvimento da hierarquia estritamente masculina, essa forma cultural traduz-se através de ferramentas ao nível das dinâmicas sociais voltadas para dominar os limites aos quais os indivíduos de sexo feminino podem expressar os seus corpos bem como ao controlo aplicado por uma questão de autoridade sexual no decorrer das manifestações da mulher enquanto sujeito. E atravessando diversas regiões mundiais de forte expressão e cariz de culturas rituais diversificadas bem como correntes onde proliferam tendências e seitas a condição restrita e dependência imposta face ao género feminino viram o peso sobrecarregar e aumentar a justificação no manto celestial reforçando assim a força predominante atribuída à supremacia por parte do sujeito masculino em que as balizas por imposição diminuíam e restringiam toda uma dimensão social nas atitudes comportamentais relativas aos níveis da emancipação na figura feminina.
No entanto, o conflito permanente para abolir todas essas construções perdura mesmo através da evolução dos grupos formados. Como é sabido desde cedo toda e qualquer mobilização do pensamento originário de índole exclusivamente fêmea e que resultou ao culminar no grupo e ação da vaga contemporânea liderado através dos intervenientes orientados numa fé espiritual orientada pelos princípios religiosos de natureza abrangente têm contestado os preconceitos na visão patriarcal dos antigos ensinamentos da palavra santa em busca do avanço face ao conjunto das práticas abertas a quem por lá permaneça com as perspetivas e condutas alargadas no foro prático da dimensão litúrgica. Todos os progressos expostos apontam num só foco para a evidência e atenção a debater em jeito de perspetiva à maneira na qual no passado a palavra dita como divina se ergueu numa forma utilitária de condicionar a força às fêmeas assim como no processo inquisitório acerca daqueles regulamentos associados as regras intrínsecas ditadas no padrão antropológico do costume que regem todas as diferenças através destas esferas de uma vida onde as referidas assimetrias perduram no curso normal do viver.
Alavancar um verdadeiro processo focado num plano mais amplo na busca pela homogeneidade baseada na essência entre indivíduos implica desde logo toda a capacidade reflexiva orientada pela vontade global nas correntes habituadas numa ótica pautada em bases que sustentam o passado místico de natureza contemplativa. Explorar as matrizes passadas focadas em todas aquelas memórias escondidas dos cargos ocupados pelo domínio que lhes foram inerentes por indivíduos na alçada maternal aliando-se no contraponto da retórica assente na interpretação pela dominância na visão estrita na masculinidade das passagens redigidas na expressão religiosa divina a par na edificação nas próprias premissas que originam de dentro a oportunidade em aceder de modo participativo nestas ditas hierarquias consagradas de forma plena poderemos ter então os indícios propícios a fraturar qualquer impedimento do progresso onde historicamente limitam os horizontes de oportunidade à força de natureza oposta nos géneros pelo desenrolar do decorrer na trajetória do que aos séculos tem sido vivido. Face as transformações a um patamar num rumo paralelo ditando por norma os costumes na estrutura das mentalidades tem também no trilhar essa perspetiva adaptada em consonância quanto aos fundamentos do foro místico fazendo na condição pela não prestação como a ferramenta orientada sobre todas as regras base da defesa viril ditando numa conversão de uma verdadeira alavanca das estruturas ativas voltadas a promover direitos que garantam estabilidades idênticas por par da garantia individual ao reforço do auto-domínio pela própria igualdade aplicada de modo comum por intermédio sobre a plenitude daqueles com o ser no panorama atual sem olhar a categorias impostas do cariz inerente a qual todos pertençam.